Porrete e Flerte

Conto de Tânia Souza
Ilustração de Lucas Zavagli 
Publicado no site Quotidianos  em 07/03/2013

A ocasião faz o João 

Sabe a história do cara que espera, espera por aquela chance única? Pelo grande momento de mudar o destino? Sempre procurando o pote de ouro no final do arco-íris? Pois essa é minha história. E esse cara sou eu. O cara certo, na hora errada. O cara errado, na hora mais perfeita. O cara que já teve em mãos os mais inusitados tesouros e, sem pensar, deixou que escapassem.
Como aconteceu?  Roubei, claro.
Anoitecia quando o peregrino chegou. O olhar era ressabiado, mas estava confiante quando jogou os sacos de viagem no chão da taverna. Foi então que ouvimos o tilintar. Assim como eu tenho um fraco por ilusões, minha Mabel tem por ouro. O sujeito estava com fome e ela sentou-se a mesa com ele. Meu amigo, o viajante fedia como repolho cozido e logo, embriagado pelo vinho fermentado e pelas graças da ruiva, entoava cantigas e fanfarronices.  Ele virava o caneco, lambuzava a barba e gargalhava, depois, segurou um saco pequenino, de veludo, e ergueu à luz do lampião. Mas quando ela tentou pegar, negou:
— Estes não, ruivinha. Coisinhas mágicas são um perigo, um perigo são.
Nem preciso dizer, a palavra mágicos voou até mim. Depois, ele jogou sobre a mesa engordurada o conteúdo de um dos três sacos maiores. As moedas douradas se espalharam e com a ajuda dela, ele contava o tesouro e trovava:
Ai, saudades daquela dama
Beijos e sonhos entre caldeirões
Me entregou seu coração
E os tesouros do maridão
Mabel era sorriso e orelha a cada vez que ele cantava tesouro, mas era a palavra magia que me arrepiava a sobrancelha.
Ai, saudades daquela dama
Face coradas lá no castelão
Cansada de lavar meias e cuecão
Me entregou seu coração
Os olhos da minha ruiva eram gigantes em mim e entendi o recado. Tempos difíceis, aqueles; e o lucro andava baixo na taverna. A noite já era velha quando ele se arrastou pelas escadas, cantarolando ainda.
Ai ai, bela dama no castelão
Nessa terra das alturas não volto não
Tem magia demais no reino dos Âo.
O cara capotou. Nem tirou as botas. Roncava mavioso quando entrei no quarto. Era meu dever roubar as moedas, mas… Foi aquele pirlimpimpim sabe, e nem pensei. E quando abri o saquinho de veludo, ali na escuridão, eles praticamente saltaram para minhas mãos. A palavra mágicos rodava, rodava em meu ouvido. Mesmo sabendo que não deveria, acreditei. Pequeninos e secos, confesso, mas dourados como pepitas.
E ainda havia as moedas.
Foi daí que mais me entortei de vez. Puxei a corda que amarrava o saco e, oras, não duvide, um maldito de um porrete saltou direto nos meus olhos. Não, não foi o trovador, foi o porrete, estou dizendo; por isso o bardo dormia tranquilo, a armadilha estava bem armada ali. Nunca apanhei tanto. O porrete parecia é vivo, e me batia e grunhia. Num último golpe, me jogou escada abaixo. Meu traseiro até hoje dói.
A ruiva? Não gostou nada e, em vez de um chamego, ganhei foi um safanão. A decepção de Mabel, depois de aguentar o fanfarrão por horas, foi clara: onde estava o ouro? Mais uma vez, eu havia sido iludido? Primeiro, foi o tal tear mágico, que de mágico não tinha nada, sorte que uma maluca qualquer o levou.  Ah, e teve aquela fase da minha fixação pelo arco-íris. Precisávamos de dinheiro, e não de fantasia inventada por um bardo sacana. Ou voltava com algo para trocar por comida, ou não precisava voltar.
Mas eu ainda tinha o saquinho de veludo e as coisinhas mágicas. Mesmo que ali, a luz do dia fossem tão cinzas, deveriam valer algo, afinal. Eu, que já deveria ter aprendido a acreditar somente no que os olhos podem ver, caído novamente pela magia.
Foi assim que dei de cara com João, o bobalhão. Entendam, era ele ou eu; mal toquei na mercadoria e já passei em frente em troca da vaca.  Mais garantido estaria com leite e depois, um assado, do que com histórias para criança dormir. Tinha fome no olho, aquele João. Mas tinha também o ar dos sonhadores.  É, quando eu tinha a mesma idade, também sonhava, mas o olho doendo da porretada não deixava tempo para quimeras. Quando a fome aperta a garganta e o frio te corta, não há tempo para sonhar. A vaca, apesar de magra, faria a alegria lá em casa.
E afinal, eram apenas feijões. Uns malditos feijões.
Ele que se virasse com eles. Repeti-lhe a patranha que ouvi, que eram mágicos. João acreditou. O que aconteceu depois, todos sabem: gigantes, objetos de ouro, galinhas, harpas… Se deu bem, o João. Dizem que uma princesa viciada em dormir sobre ervilhas anda de olho no valente. Vez em quando, ainda vejo João e seus ovos de ouro.
O resto é lenda.
Eita vidinha mais ou menos, essa. Da vaca, nem os ossos sobraram.  Mas agora não é hora de chorar pelos feijões plantados.  Pessoal lá em casa teve o seu churrasco, João bobalhão, que sonhava demais, o seu final feliz.
Mabel, a ruiva olhar de mel? Ela e o bardo estão juntos agora. Dizem que a viúva do gigante procura por eles. Ciúmes, com certeza. Escândalos são tão bons como uma panela de sopa. A viúva, que tanto gritava no velório do gigantão, resmungava mesmo era a mágoa sobre o safado de um sedutor, um traidor que levou as últimas sementes da árvore sagrada e prometeu voltar para buscá-la. Não se deve acreditar em bardos mascates, não senhora, dizem as boas moças da vila. A ocasião faz…  Ah, não importa. Os malditos eram mágicos, afinal.
E eu continuo sendo o cara que desperdiçou seus feijões. É, esse cara sou eu.
Mas hoje, vi o fantástico novamente e desta vez, vai ser meu. A velhinha que cruza a vila todos os dias com um cesto cheinho de maçãs não me engana. São maçãs com aquele mesmo tilintintin que me arrepia as sobrancelhas.
E dessa vez, a mágica será toda minha. Pedacinho por pedacinho. Afinal que mal pode me fazer uma velhinha?
Dessa vez, a magia não me escapa.